sábado, 30 de outubro de 2010

Sociólogo Demétrio Magnoli descreve Lula como um mito de papel

Reproduzo aqui o artigo de Demétrio Magnoli publicado no jornal Estado de São Paulo em 28/10/2010.

 

Um mito de papel

Demétrio Magnoli – O Estado de S.Paulo
“Não me importo de ganhar presente atrasado. Eu quero que o Brasil me
dê de presente a Dilma presidente do Brasil”, conclamou Lula, do alto
de um palanque, dias atrás. Não foi um gesto fortuito. Antes, a
Executiva do PT definira a campanha “Dê a vitória de Dilma de presente
a Lula”. Aos 65 anos, a figura que deixa o Planalto cumpre uma antiga
profecia do general Golbery do Couto e Silva. O “mago” da ditadura
militar enxergara no sindicalista em ascensão o “homem que destruirá a
esquerda no Brasil”. Quando o PT trata a Presidência da República como
uma oferenda pessoal, nada resta de aproveitável no maior partido de
esquerda do País.
Lula vive a sua quarta encarnação. Ele foi o expoente do novo
movimento sindical aos 30, o líder de um partido de massas aos 40, o
presidente salvacionista aos 60. Agora, aos 65, virou mito. O mito,
contudo, é feito de papel. Ele vive nos ensaios dos intelectuais que
se rebaixam voluntariamente à condição de áulicos e nos artigos de
jornalistas seduzidos pelas aparências ou atraídos pelas luzes do
poder. Todavia ele só existe na consciência dos brasileiros como
fenômeno marginal. Daqui a três dias, Lula pode até mesmo ficar sem
seu almejado carrinho de rolimã. A mera existência da hipótese
improvável de derrota de Dilma evidencia a natureza fraudulenta da
mitificação que está em curso.
“É a economia, estúpido!”, escreveu James Carville, o estrategista
eleitoral de Bill Clinton, num cartaz pendurado na sede da campanha,
em 1992. George H. Bush, o pai, disputava a reeleição cercado pela
auréola do triunfo na primeira Guerra do Golfo, mas o país submergia
na recessão. Clinton venceu, insistindo na tecla da economia. Por que
Dilma não venceu no primeiro turno, se a economia avança em desabalada
carreira, num ritmo alucinante propiciado pelo crédito farto e pelos
fluxos especulativos de investimentos estrangeiros?
A pergunta deve ser esclarecida. Lula abordou a sua sucessão como uma
campanha de reeleição. No Brasil, como na América Latina em geral, o
instituto da reeleição tende a converter o Estado numa máquina
partidária. A Presidência, os Ministérios, as empresas estatais e as
centrais sindicais neopelegas foram mobilizadas para assegurar o
triunfo da candidata oficial. Nessas condições, por que a “mulher de
Lula”, o pseudônimo do mito vivo, não conseguiu reproduzir as
performances de Eduardo Campos, em Pernambuco, Jaques Wagner, na
Bahia, Sérgio Cabral, no Rio de Janeiro, Antonio Anastasia, em Minas
Gerais, ou Geraldo Alckmin, em São Paulo?
“Há três tipos de mentiras – mentiras, mentiras abomináveis e
estatísticas”, teria dito certa vez Benjamin Disraeli. Os institutos
de pesquisa registram uma taxa de aprovação de Lula em torno de 80%.
Cerca de dois terços da aprovação recordista se originam de indivíduos
que conferem ao presidente a avaliação “bom”, não “ótimo”. Nesse
grupo, uma maioria não votou na “mulher de Lula” no primeiro turno.
Mas a produção intelectual do mito, a fim de fabricar uma “mentira
abominável”, opera exclusivamente com a taxa agregada. Há muito mais
que ingenuidade no curioso procedimento.
As águas que confluem para o rio da mitificação de Lula partem de dois
tributários principais, além de pequenas nascentes poluídas pelos
patrocínios oriundos do Ministério da Verdade Oficial, de Franklin
Martins. O primeiro tributário escorre pela vertente dos intelectuais
de esquerda, que renunciaram às suas convicções básicas, abdicaram da
meta de reformas estruturantes e desistiram de reivindicar a
universalização efetiva dos direitos sociais. Eles retrocederam à
trincheira de um antiamericanismo primitivo e, ecoando uma melodia tão
antiga quanto anacrônica, celebram a imagem de um líder salvacionista
que fala ao povo por cima das instituições da democracia. Nesse
conjunto, uma corrente mais nostálgica, que se pretende realista,
enxerga em Lula a derradeira boia de salvação para a ditadura
castrista em Cuba. A Marilena Chaui pós-mensalão, transfigurada em
porta-estandarte do “controle social da mídia”, é a síntese possível
do lulismo dos intelectuais.
“As pessoas ricas foram as que mais ganharam dinheiro no meu governo”,
urrou Lula num comício eleitoral em Belo Horizonte, pronunciando um
diagnóstico inquestionável. O segundo tributário da mitificação desce
da vertente de uma elite empresarial avessa à concorrência, que
prospera no ecossistema de negócios configurado pelo BNDES e pelos
fundos de pensão. Essa corrente identifica no lulismo o impulso de
restauração de um modelo econômico fundado na aliança entre o Estado e
o grande capital. Os empresários da Abimaq divulgaram um manifesto em
defesa do BNDES, enquanto Eike Batista, um sócio do banco estatal, o
cobria de elogios. Na noite do primeiro turno, os analistas
financeiros quase vestiram luto fechado. Tais figuras, tanto quanto os
controladores da Oi e os proprietários da Odebrecht, representam o
lulismo da elite econômica.
O mito ficou nu no primeiro turno. Todos os indícios sugerem que o
aguardado triunfo de Dilma foi frustrado exatamente por Lula – que, na
sequência do escândalo de Erenice Guerra, afrontou a opinião pública
ao investir contra a imprensa independente. “Nem sempre é a economia,
estúpido!”: os valores também contam. Naquele momento as curvas de
tendências eleitorais se inverteram, expressando a resistência de mais
de metade dos brasileiros ao lulismo. O jornalismo honesto deveria
refletir sobre isso, antes de reproduzir as sentenças escritas pelos
fabricantes de mitos.
Os mitos fundadores pertencem a um tempo anterior à História. No
fundo, desde a difusão da escrita na Grécia do século 8.º a.C., só
surgiram mitos de papel – isto é, frutos da obra política dos
filósofos. Por definição, tais mitos estão sujeitos à desmitificação.
Já é hora de submeter o mito de Lula a essa crítica esclarecedora.

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