quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A Tese de Dilma

A Tese de Dilma
Stephen Kanitz

Dilma Rousseff, ministra-chefe da Casa Civil, tem apresentado uma tese que merece os aplausos de todos os administradores de esquerda deste país. É uma tese que defendemos há mais de quarenta anos. Dilma propõe reduzir os juros, não para recuperar a capacidade de investimento do estado ou para gastar no social, que é o discurso usual daqueles que se opõem aos juros elevados. Ela quer reduzir os juros para poder "reduzir o custo do capital social das empresas". Finalmente alguém se tocou do verdadeiro problema. O custo do capital no Brasil é alto porque os juros da dívida interna também são altos.

Se o estado paga 13% ao ano de "renda fixa" para "rolar" a sua dívida, nenhum projeto empresarial com retorno abaixo de 13%, 14% ou até 19% será retirado das gavetas. Nenhum administrador ou empreendedor vai assumir o risco de quebrar, o risco de perder tudo, o risco de processos trabalhistas e de consumidores, se o estado oferece 13% ao ano, e sem risco. A China reduziu o custo da "renda fixa" para 1%, o que permitiu a empreendedores e engenheiros desengavetar projetos simples, sem muita tecnologia, em que basta parafusar duas peças diferentes e nada mais, e por isso rendem 4% ao ano, barateando o preço de venda, que é tudo de que precisaríamos.

É a "renda fixa" que eleva a "renda variável e a taxa de retorno" dos empresários e acionistas. Por isso, no Brasil, só desengavetamos projetos que rendam no mínimo 19% ao ano, projetos com "elevado valor adicionado", projetos que exigem subsídios e renúncias fiscais, projetos com empréstimos subsidiados pelo BNDES, com "zonas francas fiscais", que requerem câmbio favorável e elevados investimentos em "ciência e tecnologia". Essas foram as grandes bandeiras dos nossos empresários "desenvolvimentistas" e de seus economistas, começando com Celso Furtado.

Era a única forma de conciliar o desejo desses economistas de capturar para o estado a quase totalidade da poupança nacional – o que exige do estado esses juros estratosféricos para serem renovados e subsídios empresariais para que haja crescimento. Tudo isso sob os aplausos da direita, que adora receber juros elevados sem ter de fazer nada, a risco zero. Com essa aliança diabólica, o juro real não cairá tão cedo.

Eu evito investir em "renda fixa" por uma questão ética. Não me sinto confortável em ganhar sem fazer nada, especialmente à custa do povo brasileiro. Sempre fiz questão de investir em ações, gerando crescimento e empregos, correndo o risco da volatilidade da "renda variável", o que me faz dormir tranqüilo quando recebo meu merecido dividendo. A tese de Dilma já foi aplicada com excelentes resultados no Brasil pelo administrador Raymundo Magliano Filho, presidente da Bolsa de Valores de São Paulo, que reduziu pela metade o custo de capital das empresas do Novo Mercado, do qual me orgulho de ser árbitro. Magliano foi eleito "administrador do ano de 2006", merecia um Nobel.

Ou seja, a tese de Dilma é viável, e nem falta vontade política para aplicá-la. Lula afirmou em seu discurso de posse que "nenhum país cresce se o custo do capital for alto". Frase que o jornalismo econômico obviamente ignorou e o jornalismo administrativo, inexistente neste país, não noticiou.

Do ponto de vista ético, chegou a hora de o estado devolver à sociedade o "capital social" que tomou emprestado, o trilhão que alguns desenvolvimentistas agora não querem devolver, o que mantém o juro e o custo do capital deste país elevado. Se o "capital social" for finalmente devolvido à sociedade nos próximos cinco anos, os juros da "renda fixa" cairão para 1%, como no resto do mundo, e deixaremos de ser os lanterninhas do crescimento.

Dilma comprou uma briga e tanto ao enfrentar essa aliança diabólica. Ela precisará de todo o apoio dos engenheiros, administradores, contadores, advogados, médicos que querem ver o custo da "renda fixa" cair, obrigando os investidores a virar empreendedores e a assumir o risco da "renda variável". Ela já tem o meu total apoio, agora só falta o seu.
Stephen Kanitz é formado pela Harvard Business School (www.kanitz.com.br)
Revista Veja, Editora Abril, edição 2000, ano 40, nº 11, 21 de março de 2007, página 22

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